19 Abril 2017
Você sabia que 80% de tudo o que é consumido no planeta fica nas mãos de apenas 20% da população mundial? Nesse ritmo, em apenas 20 anos serão necessárias quatro Terras para suprir esse consumo. Os números parecem alarmantes – e são! 

Quem avisa é Helio Mattar, diretor-presidente do Instituto Akatu, organização não governamental sem fins lucrativos que trabalha pela conscientização e mobilização da sociedade para o consumo consciente. Segura e cadenciada, sua voz tem o tom de quem enxerga um mundo melhor, mas ainda distante daquele que já deveria existir.

“No nosso estilo de vida atual, já usamos 60% de recursos além da capacidade regenerativa do planeta. Apenas as mudanças tecnologias – como fontes de energias mais limpas e processos mais sustentáveis – não serão suficientes. É necessário que haja outra foram de consumir. E isso não significa consumir menos, mas comprar, usar e descartar de forma diferente”, explica.

Segundo o estudo Consumo Consciente dos Brasileiros, realizado pelo SPC Brasil e Confederação Nacional dos Dirigente Lojistas (CNDL) em 2016, 51,4% dos entrevistados (contra 33% em 2015) acreditam saber o significado de consumir conscientemente. Contudo, apenas três em cada dez brasileiros podem ser considerados conscientes (32%). 

Motivos para que isso aconteça, há vários, pontua Helio. Há 16 anos à frente do Akatu ele tem propriedade para dizer o que funciona na mobilização e sensibilização da sociedade brasileira. É preciso ser simples, lúdico e educativo. Na nova campanha do instituto, estimula-se a economia colaborativa. Por exemplo, ao invés do consumidor comprar um item que provavelmente não será utilizado com frequência (uma furadeira, por exemplo), ele pode compartilhar o produto com outras pessoas. “É um comportamento que, além de reduzir a demanda por recursos da natureza, cria oportunidade para novos vínculos sociais. E é aí que entra a experiência. A campanha mostra que viver o momento é mais recompensador do que a compra em si”, reforça. 

Como boas iniciativas em curso, ele cita o Airbnb, aluguel de carros e brechós. Alguns percalços, contudo, ainda atrapalham esse progresso. “O gap está em diversos lados. Primeiro, faltam políticas públicas que estimulem o surgimento de mais iniciativas, reduzindo a cobrança de taxas. Depois, há o fato de que grandes empresas preferem comprar ideias inovadoras quando elas já deram certo, não gostam de se arriscar em negócios embrionários. Por fim, é necessário que o consumidor mude seu comportamento, esteja aberto a novidades. Temos que rever a relação entre compra e prazer. Essa será a mudança mais significativa: tornar o consumo um usufruto dos produtos e serviços, e não um sinônimo de posse”, esclarece.

O papel de cada um

O despertar, contudo, ainda é lento. E para justificar o adjetivo, Helio explica que não basta substituir a tecnologia. É preciso reduzir o uso dos recursos naturais e oferecer produtos que possam ser reciclados. “Vemos que a quantidade de material reciclado cresceu muito. Hoje, aproximadamente 1 milhão de pessoas trabalha com coleta seletiva. Isso indica que houve resultado no esforço de mudar o pensamento do brasileiro. Quem faz coleta seletiva se preocupa no longo prazo e coletivamente”, pontua.

Para aqueles que têm dúvida no que comprar e como fazê-lo, o Akatu disponibiliza as 6 perguntas do consumo consciente – um guia que considera as características de produção, uso dos recursos naturais, valorização da comunidade e contribuição para a economia local. 

“O setor empresarial tem se tornado mais transparente e dado visibilidade aos seus processos. Ao mesmo tempo, o consumidor precisa ir atrás de informações, conhecer melhor as empresas, pesquisar o que se fala sobre elas. A reputação das companhias, dada visibilidade e transparência possibilitadas pela internet, é cada vez mais definida pelas relações com seus stakeholders”, reforça. 

A consciência nas empresas

Esse mesmo indivíduo que se torna consciente dissemina os aprendizados em diversos ambientes, a exemplo do seu local de trabalho. Afinal, a mesma pessoa que consome é a que produz e isso significa uma preocupação maior com processos e produtos finais. No caso da Tetra Pak, as inovações permeiam desde o uso racional de recursos hídricos, por meio do reúso de água em equipamentos, até a utilização de embalagens longa vida pós-consumo para produção de objetos como telhas, bancos e pallets. Estes últimos, uma novidade pronta para ganhar espaço no mercado nacional e internacional: resistentes a ambientes refrigerados e úmidos os pallets reciclados têm vida útil, em média, 10 vezes maior do que os tradicionais.

Além de oferecer produtos mais sustentáveis, companhias têm investido em ações de conscientização, a exemplo da campanha “Tô de Olho”, lançada este ano pela Tetra Pak. Ao despertar no público o sentimento de responsabilidade individual pelo planeta, a comunicação reforça como as escolhas dos consumidores no momento da compra fazem a diferença para o futuro deixado para as crianças.

Cuidar do que vem da terra

Os temas vão mudando, mas Helio mantém a fluidez de discurso e ponderações. Um tema, entretanto, parece lhe preocupar de forma especial. “O nosso futuro depende muito da nossa relação diária de cuidado e preservação da natureza”, afirma. 

A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) estima que haja uma parda de 40 a 50% dos alimentos produzidos globalmente, nas etapas de colheita, transporte, armazenamento e descarte domiciliar. “Se juntássemos todo esse desperdício e concentrássemos ele em um único país, ele seria o terceiro maior emissor de gases do efeito estufa. “É um índice altíssimo, do qual as pessoas não se dão contam. Desperdiçar alimentos impacta em diversos problemas, desde a crise da água até o aquecimento global”, reitera.

Outras iniciativas que também estão relacionada à mudança climática são as que fomentam a renovabilidade. Seja por meio da geração de energia eólica ou solar, seja pela utilização de matérias-primas renováveis como o plástico de cana-de-açúcar em substituição ao plástico de petróleo, apostar em conteúdos renováveis é parte importante desse cuidado com planeta. 

“É uma mudança de valor para o consumidor e um esforço conjunto de empresas e organizações não-governamentais. É o nosso cotidiano que causa o maior impacto no meio ambiente. Precisamos mudar o estilo de vida e perceber que o nosso comportamento é o que garantirá um mundo melhor para todos”, conclui Helio. 


 
Helio Mattar é formado em Engenharia da Produção pela Escola Politécnica da USP e obteve os títulos de Mestre, como Fulbright scholar, e Ph.D., bolsista da OEA – Organização dos Estados Americanos e da FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, ambos títulos em Engenharia Industrial pela Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Foi durante 5 anos membro do Conselho de Consumo Sustentável do Fórum Econômico Mundial. Foi idealizador, um dos fundadores e é, atualmente, Diretor Presidente do Instituto Akatu.
 
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